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Desastre Centrista na Bolívia

  

  

Originalmente publicado em Workers Vanguard (jornal da então revolucionária Liga Espartaquista) No. 3, de dezembro de 1971. A tradução para o português foi realizada pelo Reagrupamento Revolucionário a partir da versão disponível em http://anti-sep-tic.blogspot.com/2009/05/1971-dec-centrist-debacle-in-bolivia.html.

  

A questão do papel do Partido Obrero Revolucionario nos recentes eventos na Bolívia tornou-se inevitavelmente um motivo de disputa fracional pelo poder entre os seguidores de Healy (SLL-WL [Socialist Labour League britânica e Workers League norte-americana]) e a OCI [Organisation Communiste Internationaliste francesa] lambertista, as alas do agora dividido Comitê Internacional. Mas além de oferecer um teste de capacidade revolucionária para ambas as alas do CI, as lições da Bolívia são importantes em si próprias como uma verificação, pela negativa, das lições da Revolução de Outubro de 1917. O POR é uma organização que se declara trotskista, liderada por Guillermo Lora e que, desde 1970, reivindica acordo com as credenciais antirrevisionistas do CI. Apesar da sua política oportunista na sequência do levante boliviano de 1952, ao conciliar com a ala esquerda do governo nacionalista burguês do MNR de Paz Estenssoro, o POR é uma organização que deve ser levada a sério pela sua implantação considerável no setor mais militante do proletariado boliviano, os mineiros de estanho.

  

Assembleia Popular

  

O POR desempenhou um papel ativo na Assembleia Popular que surgiu sob o regime bonapartista do militar de esquerda, o General Juan Jose Torres, que foi derrubado por um golpe de direita do General Hugo Banzer em agosto. A Assembleia Popular era composta de uma maioria de representantes de organizações da classe trabalhadora e incluía representantes das organizações de esquerda significativas. A base de adesão da Assembleia Popular foi definida como apoio às Teses do Quarto Congresso da Central Obrera Boliviana, a principal federação sindical, que é pesadamente influenciada por nacionalistas de esquerda e stalinistas. A assembleia popular reivindicava liderar a luta contra o imperialismo e pelo socialismo:

  

“A Assembleia Popular é uma frente revolucionária anti-imperialista liderada pelo proletariado, constituída pela Central Obrera Boliviana, as confederações sindicais e federações de caráter nacional, as organizações populares e os partidos políticos de orientação revolucionária. Ela reconhece como sua liderança política o proletariado e declara como seu programa as Teses Políticas aprovadas pelo Quarto Congresso da COB, realizado em maio de 1970...”

  

“A Assembleia Popular se constitui como a liderança e centro unificador do movimento anti-imperialista e o seu objetivo fundamental consiste em conseguir a liberação nacional e o estabelecimento do socialismo na Bolívia.”

  

– Citado dos estatutos da Assembleia Popular, reimpresso no órgão do POR, Masas, de 13 de julho de 1971.

  

De acordo com o POR, a Assembleia Popular era um órgão de tipo soviético que tinha o potencial para se tornar uma instituição de poder dual – ou seja, que era um governo proletário embrionário paralelo e em contradição com o governo burguês de Torres. Masas realizou ocasionalmente duras críticas ao PC [stalinista] por seguir uma “linha direitista e pró-governo” na Assembleia, mas não expôs sistematicamente o PC e os outros partidos reformistas pela sua traição à classe trabalhadora ao tentarem subordinar a Assembleia a Torres, dando ênfase pelo menos igual em elogiar a Assembleia e defende-la contra detratores “esquerdistas”.

  

Vacilação centrista

  

Mesmo nos baseando em documentação insuficiente, o que surge claramente é um padrão de vacilação centrista por parte do POR. Por exemplo, em um artigo escrito por Guillermo Lora depois do golpe de Banzer, está o seguinte reconhecimento:

  

“Nesse momento [outubro de 1970] todos pensavam – incluindo os marxistas – que as armas seriam distribuídas pela equipe militar do governo, que consideraria que apenas se apoiando nas massas e lhes dando poder de fogo adequado eles poderiam ao menos neutralizar a direita gorila. Essa posição estava completamente errada...”

  

Bulletin [jornal da Workers League norte-americana], 27 de setembro de 1971.

  

Ter depositado qualquer confiança em Torres para armar as massas mostra a mais severa desorientação por parte do POR sobre a questão crucial da natureza de classe do Estado. Torres era um bonapartista buscando se equilibrar entre a classe trabalhadora, despertada por uma mostra de sua força e ansiosa por lutar por seu próprio domínio de classe, e os generais reacionários – e que estava encabeçando o Estado burguês. Embora forçado a fazer concessões às massas, Torres, como Lora aponta:

  

“... preferiu capitular a seus colegas generais antes de armar as massas que mostravam sinais de que tomavam o caminho do socialismo e cuja mobilização colocava em sério perigo o exército como instituição.”

  

A situação é clara, mas a atitude e o papel do POR não. Já na edição de 31 de maio de 1971 de Masas, nós encontramos um chamado pela formação de milícias independentes de trabalhadores e camponeses e a afirmação categórica de que: “O General Torres nunca vai armar as milícias de trabalhadores e camponeses”.

  

Um artigo na Workers Press, da SLL, de 24 de agosto último cita um líder do POR, Filemon Escobar:

  

“... nós vamos trabalhar pelos objetivos políticos que ajudem a radicalizar o presente processo – por exemplo, participação operária na COMIBOL [Corporação Mineira Boliviana]”.

  

E o artigo de Lora no Bulletin fala do “perigo para o Estado que significaria uma participação majoritária da classe trabalhadora na COMIBOL”. Entretanto, um longo artigo da edição de 31 de maio de Masas expõe o plano de “participação operária” na COMIBOL como “ponto de partida para a burocratização e controle político dos ‘gestores operários’ por parte do Estado”, contrapondo a isso a demanda por “controle operário – com direito de veto” e apontando que o controle operário não resolve a luta de classes.

  

Uma vulgarização severa da posição leninista fica patente em um artigo de 9 de maio de Masas, que declara:

  

“... a contradição fundamental na Bolívia não é outra que não a que existe entre o proletariado e o imperialismo.”

  

Nossa pergunta é simples: que papel a burguesia nacional joga nesse esquema? Isso porque a ilusão fatal disseminada pela trama nacionalista-stalinista era precisamente a concepção de que a burguesia “anti-imperialista” era uma aliada. O que se exigia do POR era precisamente romper a classe trabalhadora da subordinação ao regime “revolucionário”, “anti-imperialista” de Torres. Para os marxistas, as forças de classe contrapostas são a classe trabalhadora apoiada pelo campesinato de um lado e a burguesia – ambos os fantoches do imperialismo e a ala nacionalista “progressiva” – de outro.

  

A resposta da OCI às graves acusações levantadas contra o POR é uma tentativa de blefe e intimidação. Sua declaração de 19 de setembro afirma:

  

“... o golpe de Estado organizado pela CIA e os ditadores militares do Brasil e da Argentina e facilitado pela ação do governo de Torres é a prova de que a política defendida pelo POR era fundamentalmente baseada nos interesses do proletariado boliviano...”

  

“... Todos aqueles que atacam o POR nesse momento representam os inimigos da ditadura do proletariado. Eles tomam o lado do imperialismo e do stalinismo. Eles são agentes da contrarrevolução e são inimigos, conscientes ou inconscientes, da Quarta Internacional.”

  

Esse tipo de argumentação pode ser simplesmente descartado de imediato. Como trotskistas, nós já ouvimos muitas vezes as acusações histéricas dos stalinistas de todo tipo na mesma linha: a ferocidade da agressão do imperialismo dos EUA contra a FLN e o regime norte-vietnamita prova que a sua liderança não os traiu; todos que atacam o Presidente Mao estão tomando o lado do imperialismo; Trotsky era consciente ou inconscientemente um agente do fascismo; aqueles que ficam em oposição ao Secretariado Unificado da Quarta Internacional, ad nauseam. Nós observamos apenas que essa “defesa” do POR não diz nada sobre o POR, mas diz muito para o descrédito da OCI.

  

A OCI afirma que a Assembleia Popular estava “sob a liderança do partido trotskista, o POR”. Essa afirmação é questionável. Em uma entrevista na edição de 9 de agosto do Bulletin, o dirigente do POR Victor Sossa declara que “o POR representava apenas cerca de 20 por cento dos delegados, talvez um pouco mais”. Apesar disso, ele esperava que a Assembleia, ainda predominantemente influenciada por stalinistas, pelo nacionalismo burguês e por “grupos pequeno-burgueses ultraesquerdistas e aventureiros”, fizesse o seguinte:

  

“Em caso de golpe, a Assembleia Popular irá chamar uma greve geral, irá assumir o comando político e militar das massas. A decisão de avançar para a organização sistemática de milícias está voltada a essa perspectiva e prepara a classe trabalhadora para o inevitável confronto, a luta para instalar plenamente o seu próprio governo, um governo operário e camponês.”

  

A dúvida aqui não é se o POR já tinha estabelecido sua hegemonia nas organizações dos trabalhadores, mas se ele estava lutando por isso – se a perspectiva do POR era expor a traição dos reformistas e nacionalistas diante dos seus apoiadores ao exigir que a Assembleia se opusesse ao regime, rompendo todos os laços com o regime e lutasse para estabelecer um governo operário e camponês – ou seja, a ditadura do proletariado. Parece que o POR depositou confiança política na Assembleia sob a sua liderança de então.

  

Sovietes: forma vs. conteúdo

  

Qual foi o papel do POR dentro da Assembleia Popular? A OCI observa que:

  

“... o estabelecimento da Assembleia Popular expressa a tendência fundamental do período, a vontade das massas proletárias e camponesas de entrar na luta pelo poder.”

  

Mas o governo de frente popular de Allende no Chile, por exemplo, também sem dúvida é uma expressão da “vontade das massas proletárias e camponesas de entrar na luta pelo poder” – porém nós sabemos que as massas chilenas foram terrivelmente enganadas e que elas provavelmente vão pagar com sangue pelas promessas dos seus falsos líderes. A disposição das massas trabalhadoras para lutar não está em discussão. Na Bolívia, como no Chile, Espanha, Vietnã e dúzias de outros exemplos, a questão é se o seu heroísmo combativo foi traído.

  

A OCI declara:

  

“É a unidade dentro e em torno da Assembleia Popular, órgão de poder dual, que sob a liderança do partido trotskista, o POR, dominou todo o processo revolucionário antes e depois dos confrontos de 20-23 de agosto.”

  

O que significa aclamar a “unidade dentro e em torno da Assembleia Popular”? Se a Assembleia Popular era de fato uma forma embrionária de soviete, como foi realizada a luta por sua liderança? Um soviete é uma frente única da classe trabalhadora elevada ao nível da luta pelo poder. Não há nada de sagrado sobre o soviete ou qualquer outra forma de frente única. Os sovietes surgem, mesmo espontaneamente, em crises revolucionárias como o centro proletário em uma situação de poder dual, com o potencial, sob uma liderança revolucionária, de derrotar o poder de Estado burguês e se tornar o comando de poder da classe trabalhadora – ou seja, consumar a revolução em um plano nacional. Eles são a melhor arena na qual os bolcheviques podem demonstrar a sua superioridade em levar adiante as tarefas implícitas ao soviete como forma embrionária do Estado de uma classe diferente: a tomada de poder e a ditadura do proletariado. Um soviete de direção menchevique, por exemplo, pode ser ainda um soviete autêntico – mas irá inevitavelmente trair. Por isso, um chamado leninista pela formação de sovietes, para que os sovietes obtenham o poder, deve contar em si a perspectiva de luta dentro do soviete: para poder demonstrar aos trabalhadores que são eles que, ao contrário dos revisionistas e reformistas, nada tem a temer em um poder soviético e que somente sua política pode conquista-lo e defende-lo. A existência de um soviete, por si próprio, não é garantia de princípio revolucionário. (Até mesmo os stalinistas chamaram – burocraticamente, é claro – pela formação de sovietes em seus ziguezagues “de esquerda”, depois de terem condenado os trabalhadores de antemão com suas políticas – políticas essas que garantiram a ruína do soviete). Sem a presença de revolucionários lutando intransigentemente em cada ponto para expor diante da classe trabalhadora os seus líderes traidores em suas colunas, a Assembleia Popular não oferecia nem mais nem menos perspectiva à revolução proletária boliviana no nível político do que a AFL-CIO de George Meany [American Federation of Labor – Congress of Industrial Organizations, maior federação sindical norte-americana]. A OCI realmente quer se gabar de que o POR defendeu a “unidade dentro e em torno da Assembleia Popular”?

  

Quando questões envolvendo a briga pelo poder entre as alas do CI não estavam postas de maneira tão clara e ultimatista, a OCI estava disposta a tomar uma atitude mais crítica com relação ao POR precisamente nessa questão. Uma carta para a liderança do POR datada de 30 de julho de 1970, e posteriormente publicada na revista teórica dos lambertistas, discutiu as Teses da COB que o POR tinha ajudado a preparar e nas quais votou. As seções do documento da COB selecionadas para a crítica da OCI incluíam a seguinte:

  

“Para poder atingir o socialismo, parece ser necessário, antes de tudo, realizar uma unidade de todas as forças revolucionárias anti-imperialistas. A revolução popular anti-imperialista está ligada à luta pelo socialismo. A frente popular é uma aliança de classes relacionadas, e o instrumento unitário para fazer a revolução. A expulsão do imperialismo e a realização das tarefas nacionais e democráticas vão tornar possível a revolução socialista.”

  

La Vérité, outubro de 1970.

  

O que esse parágrafo estabelece como perspectiva é a teoria menchevique de etapas, pura e simplesmente – primeiro a libertação nacional, depois a revolução socialista. É a clássica racionalização reformista para a colaboração de classes, que levou às mais amargas e sangrentas derrotas para a classe trabalhadora. E ainda assim, o POR apoiou essa resolução e continuou a elogiá-la em Masas. Ao invés de lutar em cima dessa questão, o POR se comprometeu com um documento contraditório cheio de misturas, que continha afirmações de internacionalismo e condenação da colaboração de classes junto com elogios às assim chamadas nações “socialistas” e um frentepopulismo explícito.

  

É um mérito dos lambertistas que eles tenham se disposto a levar ao POR e posteriormente tornar públicas suas críticas aos desvios de princípios do POR. Agora, entretanto, o oportunismo da OCI tomou a dianteira e assim todos os críticos do POR se tornaram “agentes da contrarrevolução”!

  

E quanto à conduta do POR desde o golpe? A edição de 6 de dezembro do Intercontinental Press do SWP [Socialist Workers Party norte-americano] reproduz uma declaração assinada pelo POR – junto com o Partido Comunista, o “POR” dos pablistas de Moscoso, grupos nacionalistas de esquerda e o próprio General Torres! O documento novamente elogia a “liderança do proletariado, a classe dominante do processo revolucionário”, mas o tom do documento é nacionalista-populista (“padres revolucionários”, “oficiais revolucionários”, “patriotas”, “o poder está agora nas mãos de estrangeiros”, etc.) e em seu miolo está o seguinte:

  

“Portanto, a necessidade é inegavelmente construir uma unidade de luta de todas as forças progressivas e democráticas para que a grande batalha possa começar em condições de oferecer uma perspectiva real para um governo nacional e popular...”

  

“Esta não é uma batalha que diz respeito a apenas um setor do povo explorado, ou apenas uma classe, instituição ou partido... Qualquer forma de sectarismo é contrarrevolucionária. Sejamos dignos do sacrifício daqueles que caíram em 21 de agosto defendendo a Bolívia.”

  

– Nossa ênfase.

  

De fato, a declaração é uma frente popular clássica que subordina a classe trabalhadora a outras forças de classe e ideologias às quais ela está em oposição fundamental e irreconciliável.

  

Frentepopulismo healyista

  

Para os mercenários políticos healyistas da SLL-WL, a decisão da OCI de marchar de mãos dadas com o POR é uma dádiva divina, uma forma fácil de afirmar a sua ortodoxia leninista e de se apresentar como a ala esquerda principista no racha do CI. Mas as diferenças reais entre os healyistas e o POR com relação à política proletária diante de um governo burguês “de esquerda” é que o POR teve a oportunidade de estragar uma situação pré-revolucionária, os healyistas não. Healy-Wohlforth se apegaram à Bolívia como um pretexto para se livrarem da OCI, que estava desempenhando um papel cada vez mais dominante no CI – e isso é tudo. Apesar de que agora eles prefeririam coloca-lo debaixo do tapete, os healyistas tem um exemplo reluzente de como eles lidariam com um governo burguês de frente popular: Chile.

  

O Bulletin de 21 de setembro de 1970 aconselhou aos trabalhadores do Chile:

  

“Só existe um caminho, e esse é o caminho revolucionário da Revolução de Outubro... Como um passo nesse sentido, os trabalhadores devem fazer com que Allende cumpra suas promessas...”.

  

O caminho de Wohlforth [dirigente da Workers League] não é o da Revolução de Outubro, mas o de certos Bolcheviques, Stalin proeminente entre eles, que chegaram perto de arruinar as chances para Outubro com sua política – denunciada por Lenin e Trotsky – de apoio ao governo provisório “enquanto ele lutar contra a reação e a contrarrevolução”. A declaração de Wohlforth se assemelha aos notórios artigos do Pravda capitulando ao menchevismo em fevereiro e março de 1917, recheado de afirmações como a seguinte:

  

“A saída é exercer pressão sobre o Governo Provisório, com a exigência de que o governo anuncie a sua disponibilidade para iniciar negociações imediatas para a paz.”

  

Contra essa política, Lenin declarou: “Voltar-se para esse governo com uma proposta para concluir a paz é equivalente a pregar a moralidade a um dono de bordel”. E Trotsky, em Lições de Outubro, disse:

  

“Este programa de pressão sobre o governo imperialista de modo a ‘induzi-lo’ a seguir um caminho justo era o programa de Kautsky e Ledebour na Alemanha, de Jean Longuet em França, de MacDonald em Inglaterra, mas nunca o programa do bolchevismo.”

  

Deve-se criticar duramente, como fez Trotsky, aqueles bolcheviques que teriam deixado escapar uma oportunidade revolucionária se não tivesse sido pela dura correção de Lenin. Mas os healyistas, que reivindicam se apoiar nos ombros dos bolcheviques, que reivindicam ter assimilado as “Lições de Outubro”, merecem críticas ainda mais severas.

  

Lenin expressou sua política em uma fórmula sem conciliações:

  

“Nossa tática: absoluta falta de confiança; nenhum apoio ao novo governo; suspeitar especialmente de Kerensky; armar o proletariado é a única garantia... nenhuma reaproximação com outros partidos.”

  

Contra a política de Lenin, estão ambos o centrismo do POR-OCI e a postura pseudo-leninista dos healyistas.

  

E agora os healyistas hipocritamente denunciam o POR-OCI pelo mesmo tipo de capitulação frentepopulista que eles próprios realizaram para o Chile!

  

Healy acoberta o LSSP

  

Mas talvez um exemplo ainda mais puro da hipocrisia healyista seja a questão do Ceilão. O Bulletin de 30 de agosto escreve:

  

“... Embora menos conhecido do que a evolução do LSSP no Ceilão, o papel de Lora e do POR não foi menos traiçoeiro e importante.”

  

Por anos, em artigos sem fim, os healyistas usaram a traição das massas cingalesas pelo LSSP [Lanka Sama Samaja Party] – que capitulou ao partido nacionalista burguês da Sra. Bandaranaike e, quando este chegou ao poder em 1964, entrou no governo – como uma forma de expor os pablistas do Secretariado Unificado, que acobertaram o LSSP até o último momento. (O Bulletin acabou de concluir outra série de quatro artigos sobre o assunto). E muito corretamente, já que o papel deles no Ceilão foi uma importante verificação do abandono do trotskismo por parte do SWP-Secretariado Unificado. Mas o que os healyistas provavelmente não vão mencionar é que eles próprios estão no mesmo barco!

  

Em maio de 1960, o SWP, então afiliado com o CI, assim como a SLL de Healy, começou a ficar cada vez mais nervoso sobre a linha e a conduta do LSSP. Em 17 de maio, Tom Kerry enviou uma carta em nome do Comitê Político do SWP para o LSSP. Ela declarava:

  

“Nós estamos fortemente perturbados pelo caminho parlamentar e eleitoral agora seguido pela liderança do LSSP...”

  

“A sua política de trabalhar pela criação de um governo do SLFP nos parece estar em completo desacordo com o curso de ação política independente da classe trabalhadora, que vocês sempre promoveram no passado como uma questão de princípio...”

  

“O seu novo curso político nos parece ser uma forma de ‘frentepopulismo’ do tipo promovido em muitos países pelos stalinistas desde 1935 – ou seja, colaboração de classes entre os partidos da classe trabalhadora e um setor da burguesia...”

  

Apesar da sua preocupação, a liderança do SWP hesitou em mencionar essa traição na sua imprensa pública.

  

Em 8 de agosto, James Robertson, então um membro do SWP, escreveu para o Comitê Político:

  

“Eu estou escrevendo para vocês sobre o assunto do silêncio público do nosso partido no que diz respeito à recente e contínua traição da classe trabalhadora cingalesa e do movimento trotskista mundial pelo Lanka Sama Samaja Party. Eu me refiro, é claro, à entrada desse partido em um pacto eleitoral de ‘Frente Popular’ com o partido stalinista e com o partido nacionalista burguês de esquerda representado pela viúva Bandaranaike.”

  

“Ao levantar esse assunto de forma privada com vários membros da liderança, eu recebi a resposta de que cartas foram enviadas para os cingaleses e que a visão de vocês é de que, por ora, uma vantagem maior será obtida para os marxistas revolucionários no LSSP através da nossa permanência em silêncio público. Eu devo discordar e clamo a vocês que reconsiderem...”

  

A carta concluía:

  

“Camaradas, que vocês condenam os ex-trotskistas cingaleses eu não tenho nenhuma dúvida, mas o seu fracasso em falar sobre isso publicamente e com grande seriedade presta um desserviço ao movimento internacionalmente.”

  

E qual foi a posição de Gerry Healy, que agora se autoproclama o único antipablista consistente do mundo? Depois de ter escrito para o SWP que manobras delicadas com os pablistas eram necessárias no Ceilão, Healy escreveu uma carta em 14 de agosto para Joe Hansen, do SWP:

  

“Nós discutimos extensamente… a proposição com respeito à situação no Ceilão. Nós achamos que é necessário escrever novamente pedindo o máximo possível de informação em relação à presente situação do partido no Ceilão.”

  

“Não há dúvida de que eles estão em uma crise severa, mas se nós tomarmos a situação deles e os recentes eventos na Europa, não é improvável que haja agora importantes desenvolvimentos por dentro do campo de Pablo. Isso é razão ainda mais para nós procedermos com cautela – como vocês insistiram tão corretamente no passado.”

  

“Nós vamos sondá-los amanhã por informação e nós sugerimos que vocês façam o mesmo e segurem, por ora, a publicação de qualquer coisa no Militant [jornal do SWP].”

  

Reconstruir a Quarta Internacional!

  

É a sua própria história que mostra a mentira nas reivindicações de internacionalismo e antirrevisionismo dos healyistas. Se os lambertistas – que em 1952 lançaram a luta contra o pablismo – nunca superaram o centrismo e agora endureceram seu oportunismo com sua linha sobre a Bolívia e sua conduta em Essen, as pretensões principista dos healyistas sempre estiveram erguidas sobre areia.

  

Apenas a Quarta Internacional – a ser reconstruída no processo de luta contra todas as variantes de revisionismo pablista, incluindo o pablismo invertido do CI – pode fornecer o caminho que avança rumo à vitória decisiva da classe trabalhadora internacional.